quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O Monteiro dos Milhões

(Foto: Wikipédia)

No dia 24 Outubro de 1920, em Sintra, faleceu António Augusto Carvalho Monteiro, mais conhecido por ‘Monteiro dos Milhões’, o magnata que mandou construir o místico Palácio da Quinta da Regaleira.

(Foto: CMS)


Filho de pais portugueses, Carvalho Monteiro nasceu no Rio de Janeiro a 27 Novembro de 1848. Herdeiro de uma enorme fortuna, que provinha do comércio de cafés e pedras preciosas, e licenciado em leis pela Universidade de Coimbra, o ‘Monteiro dos Milhões’ foi um distinto coleccionador e bibliófilo, detentor de uma das mais raras colecções camonianas portuguesa. A sua grande cultura terá decerto influenciado a misteriosa simbologia do palácio da Quinta da Regaleira, situado na encosta da Serra de Sintra, perto do Palácio de Seteais.

(Foto: CMS)


Homem excêntrico, Carvalho Monteiro mandou construir o seu enorme túmulo no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, deixando-o a cargo do mesmo arquitecto que projectou o Palácio da Quinta da Regaleira em Sintra, Luigi Manini (também autor do projecto do Palácio do Buçaco). Este sepulcro parece mesmo ter sido retirado do místico palácio sintrense...


A porta deste enorme jazigo (um dos maiores e mais imponentes do cemitério), situado na alameda principal do Cemitério do lado esquerdo, está carregada de simbologia e era aberta com a mesma chave que abria a Quinta da Regaleira e o seu palácio na Rua do Alecrim, em Lisboa. Este jazigo, uma verdadeira obra de arte, ostenta uma multiplicidade de simbologias maçónicas. A porta tem uma abelha gravada na aldraba, carregando uma caveira. A abelha, diligente e trabalhadora, representa o maçon no seu esforço organizado.



O gradeamento, que se encontra nas traseiras do jazigo, ostenta a simbologia do vinho e do pão, o espírito e o corpo. Possui também diversas corujas, símbolo de sabedoria, assim como papoilas dormideiras, que simbolizam a morte.

Para quem não conhece o Cemitério dos Prazeres, vale a pena uma visita. Para além de um mero cemitério, é um conjunto impressionante de obras de arte da arquitectura, e onde estão sepultados grandes vultos da cultura, política e vida social portuguesa.


Cemitério dos Prazeres

O Cemitério dos Prazeres foi construído no ano de 1833. Em Junho desse ano, uma violenta epidemia de cólera morbus assolou Lisboa, causando milhares de mortos, o que forçou as autoridades sanitárias ao estabelecimento de dois cemitérios, e à proibição dos enterramentos nos espaços religiosos, como tradicionalmente se efectuavam. A legislação vem regulamentar a interdição dos enterramentos em igrejas, conventos, ermidas e demais espaços religiosos, obrigando à construção, em todo o País, de cemitérios públicos.

Servindo o lado ocidental de Lisboa, onde se implantavam os bairros das residências aristocráticas, desde cedo que este se torna o cemitério das famílias dominantes da cidade. Símbolos de variadas interpretações, religiosas, maçónicas, profissionais, heráldica, bem como a disposição espacial das construções e a variação das formas de que se revestem, tornam este espaço num precioso testemunho da forma como no séc. XIX se pensava a morte.

Entre outros, estão sepultados no cemitério dos prazeres a Condessa d’Edla (mulher do Rei Artista, D. Fernando II), os actores Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, Família D’Orey (os segundos proprietários da Quinta da Regaleira), Alfredo Keil (autor do hino nacional ‘A Portuguesa’), Oliveira Martins, Duque de Palmela e onde estiveram sepultados Amália Rodrigues e Aquilino Ribeiro, entre muitos outros nomes de destaque.

(Fotos Cemitério dos Prazeres: Para os Lados de Sintra / Fonte: Wikipédia)


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6 Comments:

At 13:41, Blogger Sophia said...

Não pude deixar de comentar este texto. Se calhar vão achar que sou louca, ou simplesmente mórbida, mas não... O cemitério dos Prazeres é para mim um lugar especial, cheio de paz e carregado de significado. Em criança, brinquei muitas tardes por entre os jazigos, fazendo de conta que eram 'castelos', enquanto a minha avó ia prestar homenagem aos familiares que já tinham partido. Com o passar do tempo, o jazigo da minha família ficou mais 'preenchido' e as recordações tornaram-se mais dolorosas. Mas volto sempre lá quando preciso verdadeiramente de paz, de reflectir. Para mim, é como passear num jardim de pedra e sentir recordações antigas. é estranhamente apaziguador, mas a verdade é que saio dali com a 'alma lavada'...

 
At 13:47, Blogger Lua said...

Faço tuas as minhas palavras. Desde pequenina, quando ainda estudava nos Salesianos, ali mesmo em frente, habituei-me a passear no cemitério dos prazeres (coisas de miudos!).
Habituei-me, com o passar dos anos, a apreciar aquele local como de facto deve ser apreciado: como um museu!
Agora, que também lá tenho alguém de quem sinto muitas saudades, a minha avó, vou lá muitas, muitas vezes. Não para por flores. Não seou muito dada a essas coisas. Mas para me sentar na pedra, ao lado dela, e conversar um bocadinho, sempre na esperança que ela me esteja a ouvir!
Pode parecer estranho, mas também eu saio dali de alma lavada.
Temos de combinar uma visita em conjunto!

 
At 17:51, Blogger fresquinha said...

Achei este artigo muito interessante, e sendo D'Orey, permita-me que publique o artigo do Monteiro dos Milhões, no meu blog, referenciando que o tirei daqui.

O meu blog chama-se "A Mulher do Próximo" e o url é www.afresquinha.blogspot.com
Muito obrigada,
Leonor de Orey
nonosm@gmail.com

 
At 16:23, Anonymous Miguel Castro said...

Não percebi esta lógia:
- Como é que invocar um sobrenome confere mais ou menos direitos sobre algo publico como o direto à informação?!

Miguel

 
At 17:05, Blogger Lua said...

Caro Miguel,

Tal direito assiste a qualquer dos leitores deste blog, desde que com a minha autorização.
O facto desta senhora querer publicar o meu texto no seu blog, prende-se com o facto de ser da família dos antigos proprietários da referida quinta. O 2º proprietário da Quinta da Regaleira, em Sintra, chamava-se Waldemar d'Orey e, ao que percebi, será um antepassado desta leitora.

No entanto, volto a frisar: autorizaria o uso de um texto a qualquer pessoa que se mostrasse interessado no mesmo, independentemente do seu sobrenome.

Atenciosamente,
A Autora

 
At 15:20, Blogger Fresquinha said...

Lua,

Agradeço-lhe a forma inteligente e respeitosa com que respondeu ao leitor que se insurgiu com o meu comentário.
Penso que está tudo dito e que não tenho mais a acrescentar.
Apenas isto: A Quinta da Regaleira é agora domínio público, felizmente, mas outrora foi propriedade privada. Não neguemos a nossa História. É lamentável que os neo-liberais do nosso País, não consigam tragar História...

Obrigada, mais uma vez, Lua.

Tudo de bom para si.

 

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